12 maio 2026

Por que não me abandonaste?

No Evangelho segundo São Mateus, capítulo 27, versículo 46, lemos: 

Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: "Eloí, Eloí, lamá sabactâni?", que significa "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?"

Essa pergunta de Jesus sempre me pegou e intrigou, e não vou tentar explicá-la, nem tentar contar o que ela desperta em mim, o que leio nela. Não sou exegeta, não sou um estudioso da Bíblia e não quero suscitar polêmicas, mas essa é uma frase marcante, para mim, uma das 10 frases mais marcantes do Evngelho.

Muitos de nós já dissemos versões dela em um momento ou outro, com vários significados, mas hoje eu quero contar de quanto eu disse uma frase com significado oposto ao dela.

Passei 7 meses e meio (de 1 de junho de 2025 a 17 de janeiro de 2026) lutando pela vida de minha esposa, a mãe de meus filhos, até que eventualmente, depois de muita luta e sofrimento, Deus a chamou de volta. Tive então que reconstruir minha vida de uma forma que eu não imaginava que viveria, criar meus filhos sozinho, com a ajuda de minha sogra, lutar com a dor da minha perda e a dor da perda deles, confortar e guiar dois meninos de 10 anos no pior processo de luto que pode existir, enquanto batalhava com problemas financeiros, dúvidas em meu emprego... 

Terminei esquecendo de mim, me colocando não em segundo lugar, mas terceiro, quarto, sei lá! Tinha feito, no começo de 2025, uma lista de coisas que faria por mim naquele ano: Perder peso, exercícios, ortopedista, dentista, oculista, mas com a doença de minha esposa, deixei pra depois. A lista ficou para 2026. Com a morte dela, deixei a lista para quando tivesse estabilizado a minha vida, zerado um banco de horas absurdo em 30 de abril, organizado a saúde dos meninos... Mas Deus decidiu me lembrar de mim de uma maneira radical: no começo de abril comecei a sentir dores extremas, que me levaram à emergência, e eventualmente me fizeram passar a vergonha de cair na rua e precisar ser levantado por estranhos (que perguntaram se minha pressão tinha caído ou se eu tinha "tomado algo"). Diagnóstico: Hérnias de disco, compressão de nervos, a coisa toda. 

Foi a lição de Deus, o lembrete dele para cuidar de mim para poder cuidar dos outros. 

E por isso sempre agradeço a ele por este inconveniente. Toda vez que volto pra casa, e consigo chegar ao elevador sem cair, em meio a muita dor, eu rezo um pai-nosso e agradeço a ele por não ter me abandonado.

Sem entender porque ele faz isso, pergunto "Meu Deus, por que não me abandonaste?". Sou o menor de seus servos, o mais cheio de falhas, mas ele não me abandonou, me lembra de mim, e me ajuda a manter a casa e o emprego. Por que?

Será que é porque sou a 1 ovelha no meio de 100? Porque ele ama e ajuda a todos os filhos? Não sei, só me resta agradecer por ele não ter me abandonado.

11 abril 2026

A presença de Deus

Como você deve saber, em novembro de 2024 eu enterrei a minha mãe, depois de 13 anos de muita luta contra a diabetes, insuficiência renal, infecções e erros médicos. Foi cansativo, mas ao mesmo tempo enriquecedor, foi um tempo que passei em maior contato com minha mãe, em que três vezes por semana, pela manhã, eu ia levá-la à hemodiálise e aproveitava esse tempinho juntos.

Quando ela faleceu, realmente descansando, eu fiquei em paz. Claro que precisei tomar decisões, acionar seguro para pagar funeral, etc., mas estava cercado de apoio, tinha meu pai, minha irmã e minha esposa o tempo todo ao meu lado, ajudando e apoiando.

Mas mal "descansei" deste trabalho, Deus me mandou outro: Em maio de 2025 minha esposa adoeceu. Foram sete meses de luta, angústia, frustração, desespero, o tempo quase todo na UTI, dividindo as tarefas de cuidar dela e dos meninos com minha sogra, preocupado com todas as despesas... Até que em janeiro de 2026 ela também faleceu. E eu nunca me senti tão só na minha vida, tão abandonado. Tive que fazer o mesmo que já tinha feito por minha mãe, mas sem apoio nenhum, sem ajuda, só. Estava sem dinheiro, então minha irmã fez o que pôde fazer da distância em que estava, e me enviou uma quantia que cobriu o que o seguro não pagou, lápide, taxas de cemitério, diácono, suborno para adiar o horário do funeral... Mas tudo precisei fazer só. Decidir só. Cercado por quase 100 pessoas que não estavam ali para ajudar, mas para cobrar. 

Mas Deus estava sempre comigo, e não me deixou na mão. Ao longo de toda essa jornada, todos os meses de angústia, sono, cansaço, trabalho, uma frase não me saía da cabeça: Deus não nos dá uma carga que não possamos suportar. E foi o caso. Com a ajuda D'Ele, enfrentei e venci todas as lutas. Enfrentei aquele dia horrível, o telefone que não parava de tocar, as cobranças, a preocupação com meus filhos que ainda não sabiam de nada, contei a meus filhos que ela tinha falecido e já tinha sido sepultada, e venci. Aguentei a carga, pois Deus me ajudou com ela.
A força que ele me deu, em todos os momentos, e através do Terço, foi o que me fez enfrentar aquele dia de solidão, e os desafios, principalmente financeiros e de criação de meus filhos, que se sucederam, e tenho fé n'Ele, que vencerei, e um dia olharei para trás com orgulho de como atravessei mais esta fase, e as próximas que se seguirão, pois Ele sempre estará comigo.

Pois como eu disse a vocês, Deus existe, e está aqui conosco!